Construindo a capital chinesa do Café

Por Hou Jiazi, Nestlé Agricultural Services, Pu’er
Comecei a colaborar com a Nestlé há 18 anos como agrónomo para a área do café. Se, na altura, me dissessem que iria fazer parte da corrente emergente da China como produtora de café a nível mundial, nunca iria acreditar.

O povo chinês produz a sua bebida nacional, o chá, há mais de 3000 anos, mas o café apenas foi introduzido há cerca de 100 anos. Ninguém lhe conferia propriamente muito valor. Eram produzidos apenas grãos de uma qualidade muito fraca.
No final dos anos 80 a atitude começou a alterar-se. Agricultores da província de Yunnan, no Sudoeste da China, produziam chá, trigo e milho recebendo lucros reduzidos. O governo pretendeu ajudar estas povoações não deixando a pobreza chegar-lhes à porta, sendo que encorajou-os a plantarem café, que se apresentava muito mais rentável.
Quando cheguei a Yunnan em 1997, comecei a trabalhar numa exploração piloto produtora de café, estabelecida pela Nestlé, para selecionar os tipos de árvore que melhor se adaptavam às condições locais, provenientes de plantas do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Companhia localizado em Tours, França.

Rápido crescimento dos padrões de vida
Na altura os agricultores viviam em habitações com poucas condições e deslocavam-se de mota – neste momento a maioria vive em boas casas e desloca-se de carro. Têm que agradecer à produção de café a grande melhoria das condições de vida. Em Pu’er, a região de Yunnan onde vivo, e onde a maioria do café da China é produzido, verificou-se um crescimento de café cultivado de zero gramas em 1988 para 50.000 toneladas em 2014.

Como?
No nosso Fornecedor local, em Pu’er, adquirimos grãos verdes de café Arábica produzidos localmente para serem usados no Nescafé. Compramos diretamente aos agricultores, para diminuir os intermediários e remover o risco de sermos ultrapassados por mercados onde conseguem reduzir muito os preços de comercialização.

O café tem que estar em conformidade com os nossos padrões de qualidade a nível global. Os agricultores trazem os seus grãos de café, nós torramos, moemos e provamos, de modo a comprovar a sua qualidade antes de procedermos à sua compra. Estamos à procura de elevada acidez, um sabor encorpado, bom aroma, com notas de Flor de Jasmim e Flor de Osmanthus.

Degustar 10.000 chávenas de café
A equipa de Serviços Agrícolas da Nestlé (NAS) em Pu’er degusta o equivalente a 10.000 chávenas de café durante cada temporada, que se inicia em Novembro e termina entre Março e Julho, no máximo.
Antes da realização da degustação de qualquer café, eu e os meus colegas dos Serviços Agrícolas colaboramos de perto com os agricultores locais de modo a ajudá-los na melhoria das suas culturas e rendimentos. Estou responsável por disponibilizar assistência técnica aos produtores de café através de formação e visitas às suas explorações.
Ao longo de 27 anos, a equipa já disponibilizou 258 formações a mais de 15.000 agricultores, ensinando técnicas de produção, processamento e degustação. Ajudámo-los a gerarem mais rendimentos e melhorámos a qualidade do seu café, ao mesmo tempo que ensinámos métodos de produção sustentáveis e como reduzir os custos de produção.



Sustentabilidade e o Nescafé Plan
Sempre nos focámos na produção sustentável de café em Yunnan – terminar com a erosão dos solos foi um dos grandes focos quando iniciámos os incentivos a esta cultura no final dos anos 80. A Nestlé lançou o Nescafé Plan a nível global em 2010, na China chegou em 2011, e ajudou-nos a melhorar as formações agrícolas, focando-nos nas Melhores Práticas Agrícolas da Nestlé e implementando o Código Comum para as Comunidades do Café (4C).
Através do Nescafé Plan aumentámos significativamente o café comprado em Yunnan, e todos os grãos de café que adquirimos diretamente dos agricultores cumprem o código 4C. Isto confere, por exemplo, garantia aos produtores de um preço justo, ajuda-os a conservar a água e restringe o uso de fertilizantes químicos.
Por vezes é difícil persuadir os agricultores para seguirem os nossos conselhos e uma agricultura de café mais sustentável, limitando o uso da água na rega e processamento, por exemplo. A minha equipa realiza também a formação dos agricultores que nunca plantaram café, o que pode ser muito desafiante, mas é incrivelmente recompensador.

Educação dos agricultores de café em zonas remotas
Muitos dos agricultores vivem em locais remotos, logo por vezes é complicado alcançá-los, especialmente na estação das chuvas. Assim que chegamos perto destes, a comunicação pode ser traiçoeira, na China existem perto de 300 línguas diferentes.

Fazemos o nosso melhor de forma a fazer passar a mensagem, construímos uma relação na base da confiança ao longo dos anos, ajudando-os a obterem os melhores preços e uma fonte de rendimento estável, melhorando o seu nível de vida. Como retorno, a Companhia assegura o fornecimento regular de café de qualidade para Nescafé.
Quando cheguei pela primeira vez a Pu’er, os meus amigos questionaram porque iria de uma cidade costeira moderna, Fangchenggang na província de Guangxi, para uma vila de montanha remota a 800 quilómetros de distância.
Cerca de duas décadas depois, Pu’er pode ainda ser uma zona rural, mas a cidade é agora conhecida como a Capital Chinesa do Café. Estou orgulhoso da pequena parte em que eu colaborei para esta transformação, aprendi imenso, não apenas sobre a cultura de café, mas como a sua produção pode contribuir para uma alteração social positiva.

China: o mercado de café com maior crescimento mundial
Apesar de cerca de 80 por cento do café que é produzido ser exportado, o investimento da Nestlé no café produzido na China ajudou a que esta se posicione como o mercado de café com maior crescimento a nível mundial. Em 2006 a Companhia lançou o primeiro “100 por cento Yunnan” Nescafé na China, que demonstra até que ponto atingiu a qualidade do café.
Tradicionalmente o povo chinês considera o café uma bebida muito amarga, mas nos dias de hoje está a ficar na moda, especialmente junto das comunidades mais jovens das grandes cidades como Shangai ou Pequim, onde o café enriquecido com o sabor do leite é altamente popular. Não era consumidor de café até ter começado a colaborar com a Nestlé, agora consumo 3 a 4 chávenas por dia.

A China possui 1.4 mil milhões de pessoas e as vendas de café já são significativas, mas a média por indivíduo é de apenas quatro chávenas por ano – comparando com 150 em Hong Kong! Ainda existe um potencial de crescimento enorme e, entusiasma-me pensar que, aqui em Yunnan estamos a ter um papel vital na nova cultura de café da China.


Saiba mais em:
Nescafé plan
Código Comum para as Comunidades do Café (4C)