Alimentação sustentável e desperdício alimentar

15 Out, 2018
Alimentação sustentável e desperdício alimentar 

Alimentação Sustentável

No mundo ocidental comemos muito e desperdiçamos muita comida. Este é um fenómeno próprio de uma sociedade que, sendo de consumo, é também de desperdício (1).

Cerca de 88 milhões de toneladas de alimentos são anualmente desperdiçadas na União Europeia, com um custo associado estimado de 143 biliões de euros. O desperdício alimentar não é apenas um problema ético e económico. Está igualmente relacionado com a depleção dos recursos naturais (2).

Segundo a FAO, o desenvolvimento sustentável consiste na gestão e conservação dos recursos naturais e na orientação da mudança tecnológica e institucional, de forma a assegurar a satisfação contínua das necessidades das gerações atuais e futuras. O desenvolvimento sustentável (nos setores da agricultura, da silvicultura e das pescas) conserva a terra, a água e os recursos genéticos das plantas e animais; é ambientalmente não degradante, tecnicamente apropriado, economicamente viável e socialmente sustentável (3).

Uma alimentação sustentável tem baixo impacto ambiental e contribui para a segurança alimentar e nutricional da população, assim como para o seu estado de saúde, tanto no presente como no futuro. As dietas sustentáveis protegem e respeitam a biodiversidade e o ecossistema, além de que permitem otimizar os recursos naturais e humanos. Para além disso, uma dieta sustentável é culturalmente aceite, nutricionalmente adequada, acessível pela população, segura e economicamente justa (4).

 

Combate ao desperdício

A alimentação sustentável implica o combate ao desperdício alimentar, o qual tem merecido uma atenção especial nos últimos tempos. É que, além do gasto inútil de recursos ambientais e económicos associado a qualquer forma de desperdício, no caso do desperdício alimentar somos ainda interpelados de um ponto de vista moral pelo facto de milhões de toneladas de alimentos serem lançadas ao lixo anualmente, num mundo onde um sexto da população mundial passa fome (1).

Desde tempos antigos que se verifica a existência da preocupação com o desperdício alimentar. A prová-lo existe uma campanha norte-americana do período da II Guerra Mundial, composta por cartazes contra o “Food waste” com o slogan “Food is a weapon. Don’t waste it!”.

Enquanto o racionamento de alimentos sempre acompanhou a realidade da guerra, este foco específico no desperdício alimentar indicia já o peso relativo que o fenómeno começava a assumir. Contudo, foi com o ciclo de crescimento económico e consumismo do pós-guerra que o desperdício alimentar assumiu proporções verdadeiramente problemáticas. Daí que, à exceção de alguns estudos pioneiros, o interesse pelo estudo do tema tenha despontado mais tarde, na década de 1970, tendo como marco a primeira Conferência Mundial sobre Alimentação (Roma, 1974) em que a redução do desperdício pós colheita foi considerada uma prioridade para o desenvolvimento.

Em 2011, um estudo da FAO revelou que um terço da produção alimentar em todo o mundo é desperdiçado. Nos países industrializados a maioria dos alimentos são desperdiçados a nível da distribuição e do consumo final, enquanto que nos países em desenvolvimento o desperdício acontece sobretudo no início da cadeia, nas fases de colheita, pós-colheita, processamento e armazenamento.

O volume do desperdício alimentar representa uma parte importante dos alimentos que são produzidos, sendo inegável o impacto ambiental que esse desperdício representa. Recursos como solo, energia e água são usados e, por vezes, esgotados ao serviço da produção destes alimentos desperdiçados. Ou seja, são também recursos desperdiçados (1).

Food is a weapon - Don't waste it  

 

Sustentabilidade alimentar em números

Em 2050, a população será superior 9 mil milhões e, como tal, será necessário produzir mais 60% de alimentos.

Cerca de 1/3 dos alimentos produzidos não é consumido, o que corresponde a 1,3 mil milhões de toneladas por ano.

As perdas alimentares e o desperdício alimentar são responsáveis pela emissão de 8% dos gases de efeito de estufa. São produzidos 263 milhões de toneladas de carne por ano no mundo, sendo 20% desta quantidade perdida ou desperdiçada.

As perdas alimentares aumentam as emissões de gás de estufa, uma vez que correspondem a um gasto de recursos utilizados (p.e. água, energia). Os portugueses consomem mais alimentos de origem animal do que de origem vegetal.

Mais de 3,5 milhões de portugueses (34% da população) têm um consumo de carne superior a 100 g/dia.

São necessários cerca de 2000 a 5000 L de água para produzir os alimentos consumidos, diariamente, por uma pessoa.

Cerca de 660 a 820 milhões de pessoas (trabalhadores e famílias) dependem da pesca como alimento e fonte de rendimento (5).

No dia 1 de agosto de 2018 registou-se o Dia da Sobrecarga da Terra. Este dia é calculado anualmente e marca a data a partir da qual o consumo de recursos naturais ultrapassa a capacidade de regeneração dos ecossistemas para esse ano (6).

Causas de perdas e desperdício

Vários aspetos influenciam as perdas e o desperdício ocorrido na cadeia de aprovisionamento e consumo. A tendência para o alongamento das cadeias distancia o produtor do consumidor, obrigando a mais operações de manuseamento nas etapas intermédias e à maior demora no percurso. A deterioração dos produtos alimentares é assim promovida, especialmente se ao longo da cadeia não houverem infraestruturas adequadas para a conservação dos alimentos, nomeadamente ao nível da refrigeração. Também ao longo do aprovisionamento ocorre a secagem natural dos produtos, através da qual estes perdem algum do seu teor em água. Nalguns armazéns de cooperativas agrícolas, por exemplo, pode chegar a registar-se perdas de 10 por cento devidas a esta perda de água.

Nos países desenvolvidos, onde os sistemas de produção e distribuição são cada vez mais eficientes, a parcela de desperdício que cabe aos consumidores é tendencialmente maior, e também por este motivo que eles são alvo de uma atenção particular quando se pensa em soluções para o fenómeno (1).

Causas de perdas e desperdício alimentar na cadeia de aprovisionamento  

 

Como construir uma alimentação sustentável e diminuir o desperdício?

1. Planeie as suas compras – Faça uma ementa semanal. Verifique os ingredientes que tem em casa e compre apenas aqueles de que necessita. Prefira frutos e legumes avulso em vez dos pré-embalados. Assim comprará apenas a quantidade desejada.

2. Verifique a data de validade – Quando adquire alimentos frescos, com um tempo de vida curto, que não tenciona consumir de imediato, procure adquirir uma embalagem cuja validade termine mais tarde. Desta forma evitará que passe rapidamente de validade.

3. Pense no seu orçamento – Desperdiçar alimentos é desperdiçar dinheiro.

4. Verifique a temperatura do seu frigorífico – Os alimentos devem ser conservados entre 1 e 5ºC para maior frescura e longevidade.

5. Armazene corretamente – Siga as instruções da embalagem.

6. Faça rotação dos bens alimentares – Garanta que quando adquire bens alimentares, os armazena por ordem de validade, colocando mais à mão os produtos de validade mais curta.

7. Sirva pequenas quantidades de alimento – com o entendimento de que todos se podem servir novamente quando terminarem, se assim o desejarem.

8. Aproveite as sobras das refeições – Em vez de deitar as sobras para o lixo, sirva no dia seguinte ou congele para consumir noutra altura.

9. Congele em porções – Se consome pouca quantidade de alimentos, congele em pequenas porções, para poder descongelar só o que pretende preparar (por exemplo: uma fatia de pão, uma posta de peixe).

10. Faça compostagem – coloque as cascas dos frutos e legumes num recipiente de compostagem e em poucos meses obterá um composto valioso para as suas plantas (7).

Alimentação sustentável e diminução do desperdício alimentar  

 

Dieta Mediterrânica

A Dieta Mediterrânica constitui um modelo alimentar diversificado e salutar e um estilo de vida que promove o bem-estar do planeta.

De forma a dar ênfase às caraterísticas do padrão alimentar mediterrânico, foi criada a Roda da Alimentação Mediterrânica, a qual salienta não só a componente alimentar, mas também os elementos inerentes ao seu estilo de vida.

Em simultâneo com outros princípios, este padrão alimentar incentiva a utilização de alimentos locais e sazonais, o que permite diminuir os custos energéticos, de tempo, embalagem e transporte inerentes à importação de alimentos.

A Dieta Mediterrânica estimula, ainda, a moderação no consumo alimentar, o que possibilita a redução do desperdício de alimentos (5).

Roda da Alimentaçãoo Mediterrânica

 

Em suma

O desperdício está implícito numa sociedade de consumo. O desperdício alimentar não é apenas um problema ético e económico, estando também relacionado com a depleção dos recursos naturais.

Todos os atores da cadeia alimentar têm um papel a desempenhar na prevenção e redução do desperdício alimentar, desde aqueles que produzem o alimento (agricultores, fabricantes alimentares) àqueles que disponibilizam os produtos para serem consumido (retalhistas e setor hoteleiro) e por último os próprios consumidores.

Cada indivíduo deve envolver-se ativamente na promoção de uma alimentação saudável, que contribua para a diminuição do desperdício alimentar e para a sustentabilidade dos recursos naturais.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Baptista, P; Campos, I; Pires, I; Vaz, S; Do campo ao garfo, Cestras, Lisboa, 2012.

(2) European Commission Food Waste, [consultado a 25/07/2018]. Disponível em https://ec.europa.eu/food/sites/food/files/safety/docs/fw_lib_tips_stop_food_waste_en.pdf

(3) FAO. The state of food and agriculture – world and regional reviews, sustainable development and natural resource management. FAO Agriculture series no. 22. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations; 1989

(4) FAO. FAO and the 17 sustainable development goals. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations; 2015 [consultado a 20/07/2018]. Disponível em: http://www.fao.org/3/a-i4997e.pdf .

(5) Associação Portuguesa de Nutrição. Alimentar o futuro – uma reflexão sobre sustentabilidade alimentar [consultado a 18/07/2018]. Disponível em http://www.apn.org.pt/documentos/ebooks/E-BOOK_SUSTENTABILIDADE__.pdf

(6) Earth Overshoot day [consultado a 18/07/2018]. Disponível em https://www.overshootday.org/

(7) Estimates of European food waste levels. Fusions EU projects 2016 [consultado a 18/07/2018]. Disponível em http://www.eufusions.org/phocadownload/Publications/Estimates%20of%20European%20food%20waste%20levels.pdf